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A democratização dos mercados privados
Nesta edição, exploramos a evolução dessas estruturas perpétuas, como elas funcionam na prática e por que o crédito privado tem sido o grande protagonista das últimas notícias

Good morning, Brasil.
As bolsas voltaram a cair globalmente em mais um dia de poucas definições. Apesar de Donald Trump ter anunciado a interrupção dos ataques às usinas de energia do Irã por 10 dias e afirmado que as negociações com Teerã estão indo "muito bem", o mercado segue cauteloso. O Brent continua negociando acima dos US$ 100.
Por aqui, as taxas de juros futuros (DIs) fecharam em alta, pressionadas pelo IPCA-15 que veio acima do esperado e pelo cenário geopolítico instável. Em Brasília, o STF derrubou a decisão do ministro André Mendonça que previa a prorrogação da CPI mista do INSS.
O Paper of the Day traz uma análise profunda sobre o mercado de fundos privados nos EUA, conduzida por Bernardo Queima, da Gama Investimentos, um dos principais especialistas em alocação internacional no país.
Aqui está o seu the news money de hoje.
QUICK TAKES
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▶️ Watch: Por que os EUA não conseguem controlar o Estreito de Ormuz (BBC Brasil)
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🧊 Ice Breaker: Por que as companhias aéreas estão reduzindo a classe econômica nos EUA (InvestNews)
DICA
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PAPER OF THE DAY
A democratização dos mercados privados
Por Bernardo Queima
![]() | CEO da Gama Investimentos e sócio do Grupo HMC, instituição dedicada a conectar investidores latino-americanos às melhores gestoras globais desde 2008. Reconhecido pela Preqin como o maior distribuidor de investimentos alternativos da América Latina, o Grupo HMC já captou mais de R$ 100 bilhões, enquanto a Gama supera os R$ 8 bilhões sob gestão. Com presença global, o grupo opera escritórios no Brasil, Santiago, Lima, Bogotá, Medellín, Cidade do México, Londres e Nova York. |
O acesso aos mercados privados passou por uma grande transformação nos últimos anos. O que antes era um privilégio quase exclusivo de investidores institucionais, com seus horizontes de liquidez restritos a décadas e montantes mínimos na casa dos milhões, agora se abre de forma estruturada para o investidor High Net Worth (HNW). E no centro dessa revolução estão os fundos evergreen.
Nesta edição, exploramos a evolução dessas estruturas perpétuas, como elas funcionam na prática e por que o crédito privado tem sido o grande protagonista das últimas notícias, assim como tentar ajudar a esclarecer esses cenários de volatilidade.
De onde vieram os evergreens
Não faz muito tempo, o mundo dos investimentos alternativos era rigidamente dividido: de um lado, os fundos abertos (com liquidez periódica, típicos de hedge funds), e do outro, os fundos fechados (estruturas de drawdown com prazo de vida definido, dominantes em mercados privados) .
Os fundos evergreen — veículos híbridos, também chamados de fundos perpétuos — surgiram para preencher essa lacuna, combinando a natureza de longo prazo dos ativos privados com mecanismos de liquidez periódica dos hedge funds.
Embora gestoras pioneiras operem essas estruturas há mais de duas décadas, a verdadeira explosão em escala ocorreu recentemente. A indústria passou de cerca de 225 fundos evergreen em 2019 para aproximadamente 520 fundos em 2025 (fonte: Pitchbook). Essa expansão foi impulsionada pela percepção de que a estrutura tradicional de "tamanho único" dos fundos fechados, com seus longos períodos de lock-up (10 a 12 anos), não atendia às necessidades de todos os investidores. Assim, o mercado evoluiu para oferecer uma solução onde o gestor está em captação contínua e o capital permanece 100% investido, permitindo a reinvestimento eficiente de principal e juros
O que mudou na indústria para os evergreens ganharem escala
O principal catalisador para essa adoção em massa foi a demanda represada do investidor de alto patrimônio. Estima-se que os investidores HNW detenham globalmente cerca de US$ 450 trilhões em ativos (Fonte: Preqin), e a busca por prêmios de risco descorrelacionados dos mercados públicos direcionou esse capital para os mercados privados.
Para atender a essa demanda, a indústria precisou se adaptar. Os fundos tradicionais (fechados) exigiam chamadas de capital imprevisíveis ao longo de 3 a 5 anos e sofriam com a J-curve — o período inicial de retornos negativos enquanto o portfólio é construído. Já os evergreens resolveram essa dor: o investidor entra em um portfólio já estabelecido e diversificado desde o primeiro dia. Além disso, os mínimos de investimento caíram drasticamente, passando da faixa de US$ 1 a 5 milhões nos fundos tradicionais para valores entre US$ 1.000 e US$ 50.000.
Como funciona na prática
A mecânica de um fundo evergreen é o que garante sua flexibilidade, mas exige compreensão por parte do investidor.
Subscrições e Resgates: Diferente dos fundos fechados, onde o capital fica "trancado" por 10 a 15 anos, os evergreens permitem aportes (subscrições) mensais ou diários, e resgates geralmente trimestrais limitados a um percentual pré definido pelo gestor.
Limitador de liquidez (Gates e Tender Offers): Para proteger o fundo de vendas forçadas de ativos ilíquidos, os resgates são limitados. Mecanismos como tender offers (ofertas de recompra de cotas pelo próprio fundo) e interval funds (fundos que oferecem liquidez em intervalos pré-definidos) estabelecem tetos de resgate que variam de 5% a 25% do PL por período. É o conceito de "liquidez programada" versus a liquidez diária das ações em bolsa. Esse mecanismo é essencial para que a estrutura permaneça de pé protegendo os investidores.
Aqui vale a analogia do “portão”: o fundo não fecha a saída sem regra; ele opera com uma porta dimensionada. Passa gente todo trimestre, mas há uma largura máxima. para evitar a necessidade de uma venda forçada prejudicando a base de investidores do fundo.
Gestão de Liquidez: Para honrar esses resgates, os gestores mantêm um "bucket de liquidez" (caixa ou ativos de alta liquidez) e linhas de crédito robustas. Como exemplo, grandes fundos de crédito privado possuem dezenas de fontes de financiamento e buffers de liquidez que chegam a representar mais de 10 vezes o valor necessário para cobrir o limite máximo de 5% de resgates trimestrais.
Valuation e NAV: O Net Asset Value (NAV) é o valor patrimonial da cota. Nos evergreens, a marcação a mercado é feita com o suporte de firmas de avaliação independentes, baseada em análise fundamentalista e nas condições atuais de mercado, e não apenas no sentimento do investidor.
A força dos retornos compostos
Um dos maiores trunfos do modelo evergreen é a eficiência na alocação de capital. Em um fundo fechado tradicional, o investidor precisa manter o capital em ativos de baixo rendimento aguardando as chamadas de capital. No evergreen, 100% do capital é investido no momento da subscrição.
Isso gera um efeito matemático poderoso. Como exemplo, para alcançar um múltiplo de capital (MOIC) de 3x em um período de 10 anos, um fundo tradicional, com período de chamada e de distribuição de capital, precisaria gerar uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de 18,4%. Graças ao reinvestimento contínuo do principal e juros, um fundo evergreen pode atingir o mesmo múltiplo de 3x com uma TIR de apenas 11,6%.
Mas como está a saúde desse mercado? E por que a indústria de Private Credit entrou nos holofotes?
Os fundos evergreen tiveram grande crescimento no crédito privado. Ativos geradores de renda, com fluxos de caixa estáveis, prêmio sobre os ativos de crédito público e baixa volatilidade impulsionaram o crescimento dentro de um ambiente de taxas de juros mais altas e incertezas grandes no mercado.
Recentemente, o mercado viu manchetes sobre grandes gestoras acionando os "gates" (limites máximos) de resgate em seus fundos evergreen. Para o investidor não familiarizado, isso pode soar como um sinal de alerta, mas a realidade é oposta: o acionamento do gate é a prova de que a estrutura está funcionando exatamente como desenhada.
A liquidez limitada faz parte da regra do jogo, não é uma exceção de emergência. Eles existem para proteger o cotista que permanece no fundo. Se um gestor fosse forçado a vender ativos ilíquidos às pressas para honrar uma corrida de saques, ele teria que aceitar grandes descontos, destruindo o valor da cota (NAV) de todos os investidores. Ao limitar as saídas a (por exemplo) 5% do patrimônio por trimestre, o fundo garante uma saída ordenada.
Mais importante ainda: no caso específico do crédito privado, a liquidez é gerada de forma estrutural e orgânica. Portfólios de crédito recebem pagamentos constantes de juros e amortizações de principal. Em um portfólio típico, entre 6% e 8% do total de investimentos é pago de volta naturalmente a cada trimestre. Ou seja, a própria dinâmica de renda dos ativos costuma ser mais do que suficiente para cobrir os resgates máximos permitidos, sem a necessidade de vender empréstimos no mercado secundário.
Olhando a qualidade do crédito (ativos dos fundos), a indústria de dívida privada continua apresentando boa performance, embora não seja imune à recente queda nas taxas de curto prazo e ao aperto nos spreads. Ainda assim, quando olhamos empresas investidas de grandes gestoras, muitas apresentam fundamentos microeconômicos resilientes com a presença de covenants (cláusulas contratuais que exigem que a empresa devedora mantenha certa saúde financeira) e a posição senior secured na estrutura de capital, com um Loan-to-Value (LTV - relação entre o valor do empréstimo e o valor da empresa) conservador – esses são as principais defesas contra perdas permanentes de capital.
Apesar das manchetes sensacionalistas da imprensa financeira sobre uma possível onda de calotes, a realidade atual dos dados mostra um cenário saudável. As taxas de non-accrual (empréstimos em que há dúvida razoável sobre o pagamento e que deixam de contabilizar juros) estão em cerca de 0,66% na média do mercado, com gestores de primeira linha operando na casa de 0,3% (Fonte: Cliffwater Direct Lending Index).
Conclusão
Os fundos evergreen deixaram de ser um nicho para se tornarem uma força estrutural. Projeções indicam que eles podem chegar a representar 20% do mercado privado na próxima década, movimentando cerca de US$ 8 trilhões. Seja para o investidor que está dando seus primeiros passos em alternativos, ou para aquele cansado da complexidade operacional das carteiras de fundos fechados, a estrutura oferece um balanço atraente entre retorno composto, acesso imediato e liquidez programada.
A chave, como sempre nos mercados privados, está na seleção do gestor: capacidade de originação, disciplina de crédito e gestão rigorosa de liquidez separam os portfólios resilientes daqueles vulneráveis aos naturais ciclos econômicos.
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AGENDA
Segunda 23/03: —
Terça 24/03: Ata do Copom; PMI Industrial (EUA); PMI Serviços (EUA)
Quarta 25/03: IPC Reino Unido
Quinta 26/03: Relatório Trimestral de Inflação; IPCA-15; Pedidos Iniciais por Seguro-Desemprego (EUA)
Sexta 27/03: Taxa de Desemprego no Brasil
MEMES SESSION
Puro suco de Brasil

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