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Quando uma marca de tênis vira empresa de IA: o caso Allbirds e os limites do hype
Estamos em uma bolha? Talvez a resposta mais honesta seja “em partes”...

Good morning, Brasil.
O Ibovespa fechou em queda nesta quinta-feira, em mais um pregão de ajustes após renovar recordes sucessivos. O recuo só não foi maior graças ao desempenho da Petrobras, que subiu acompanhando a alta do petróleo e a aprovação, em assembleia, do pagamento de R$ 41,2 bilhões em dividendos. Pelo visto, o teste dos 200 mil pontos vai ficar para a próxima semana.
Lá fora, o sentimento de alívio com o Oriente Médio continua a sustentar as bolsas americanas, mas a atenção agora se volta para a temporada de resultados e para os dados da economia que podem ditar o ritmo do Fed.
O Paper of the Day, assinado por Julia De Luca, traz os detalhes de uma das reviravoltas mais impressionantes dos mercados recentes. O artigo nos faz refletir sobre o limite entre inovação e euforia: será que a infraestrutura voltada para IA é o novo motor da economia ou estamos diante de uma bolha neste setor?
Aqui está o seu the news money de hoje.
QUICK TAKES
📎 Read: Petrobras define novo conselho sob pressão da guerra; governo indica 8 de 11 membros (Bloomberg Línea)
▶️ Watch: Votorantim pós-Antônio Ermírio: como o grupo quer investir um caixa de R$ 7,7 bilhões (InvestNews)
#️⃣ Stat: Vale aumenta produção de minério de ferro em 3%; cobre tem melhor 1T desde 2017 (InfoMoney)
🧊 Ice Breaker: Um colete salva-vidas de um sobrevivente do Titanic vai a leilão, o primeiro do gênero (CNN)
POR QUE O MERCADO SE MOVEU:
(+) PETR3 +4,19% / PETR4 +3,60% — O Brent subiu ~3,8% com sinais de que EUA e Irã podem estender o cessar-fogo, após mediador paquistanês relatar avanço em "questões delicadas".
(+) PRIO3 +1,68% — Mesma dinâmica de alta do petróleo beneficiou as demais empresas do setor de energia.
(-) ASAI3 -8,86% — A Receita Federal emitiu alerta sobre a validade de créditos de PIS/Cofins no varejo alimentar, movimento classificado pelo JPMorgan como negativo para o setor.
CENTRAL DE RESULTADOS — 1T26:
Netflix (NFLX): Lucro por ação de US$ 1,23 vs. estimativa de US$ 0,79, receita de US$ 12,25 bi (+16,2% a/a), acima dos US$ 12,18 bi esperados. Apesar dos números acima do esperado, a ação caiu 7% no pós-mercado. O cofundador Reed Hastings também anunciou saída do conselho.
PepsiCo (PEP): Lucro por ação ajustado de US$ 1,61 vs. estimativa de US$ 1,55; receita de US$ 19,44 bi (+8,5% a/a), acima dos US$ 18,94 bi esperados. A receita orgânica cresceu 2,6%, acelerando na comparação com trimestres anteriores. A empresa manteve o guidance de 2026 e reafirmou que planeja retornar US$ 8,9 bi aos acionistas no ano.
PAPER OF THE DAY
Quando uma marca de tênis vira empresa de IA: o caso Allbirds e os limites do hype
Por Julia De Luca
![]() | Julia De Luca é Corporate Development no Itaú, apaixonada por tecnologia, criadora da LatAm Tech Weekly e corredora assídua. |
Até poucas semanas atrás, a Allbirds era conhecida como uma das marcas mais emblemáticas da chamada “onda DTC sustentável”. Fundada em 2015, no Vale do Silício, a empresa ganhou notoriedade ao transformar tênis feitos de lã merino em símbolo de um novo capitalismo “consciente”: design minimalista, discurso ambiental forte e uma base fiel de consumidores — especialmente entre executivos e investidores de tecnologia. Em 2021, esse imaginário levou a Allbirds a abrir capital na Nasdaq avaliada em mais de US$ 4 bilhões.

Imagem: Drapers
O que veio depois é quase um guia clássico de como boas narrativas não são suficientes. A empresa sofreu com margens apertadas, custos elevados, dificuldade de escalar internacionalmente e um consumidor cada vez menos disposto a pagar prêmio por sustentabilidade. As receitas começaram a cair de forma consistente, lojas próprias foram fechadas e, em março de 2026, a Allbirds vendeu sua marca, propriedade intelectual e ativos de calçados para a American Exchange Group por apenas US$ 39 milhões — uma fração simbólica do valor do IPO.
Seria o capítulo final de uma “queridinha” do mercado? Mas foi justamente aí que a história ganhou um plot twist digno de outros ciclos especulativos...
Poucas semanas após a venda do negócio original, a Allbirds anunciou que irá pivotar totalmente para inteligência artificial, mudar de nome para NewBird AI e levantar US$ 50 milhões em títulos conversíveis para comprar GPUs e operar um modelo de GPU-as-a-Service. Em resumo: a ex-empresa de tênis passaria a alugar capacidade computacional para desenvolvedores e empresas de IA que não conseguem acesso fácil aos hyperscalers.
A reação do mercado foi imediata — e extrema. O papel, que negociava ao redor de US$ 2–3, chegou a subir 582% em um único dia, elevando o valor de mercado de cerca de US$ 20 milhões para mais de US$ 140 milhões. Uma companhia que dias antes caminhava para o encerramento ganhou nova vida simplesmente ao se reposicionar como “empresa de IA”.

Gráfico: Google Finance
O movimento escancara duas forças simultâneas — e contraditórias. A primeira é real: existe, de fato, uma escassez estrutural de GPUs no mundo. Demanda por treinamento e inferência de modelos cresce mais rápido do que a capacidade de oferta de empresas como Nvidia, AWS, Microsoft e Google. Isso abriu espaço para novos “neoclouds” e modelos alternativos de infraestrutura.
A segunda força é mais preocupante: a forma como o mercado passou a precificar qualquer narrativa associada a IA, independentemente da coerência operacional, da competência técnica ou do histórico da empresa. Allbirds não tinha equipe de infraestrutura, data centers, experiência em cloud ou tecnologia proprietária. Ainda assim, bastou anunciar o pivot para o ativo explodir — lembrando episódios da bolha da internet ou, mais recentemente, da corrida por “blockchain” em 2017. (Nota: até o momento da conclusão da coluna, o papel ainda estava beirando US$ 15/ação)
O contraste com empresas tradicionais ajuda a ilustrar o ponto. Enquanto a Allbirds multiplicava seu valor sem ainda executar nada, gigantes do consumo como a Nike seguem sob pressão. O papel da Nike caiu mais de 30% no último ano, refletindo dificuldades reais de execução, desaceleração da demanda, desafios na China e uma transição complexa no modelo DTC. O mercado, nesse caso, penaliza fundamentos. No caso da Allbirds, premia uma promessa.
Isso nos leva à pergunta inevitável: estamos em uma bolha? Talvez a resposta mais honesta seja “em partes”. A infraestrutura de IA é um mercado legítimo, grande e estratégico. Mas quando uma empresa falida muda de nome, abandona sua missão original e passa a valer múltiplos mais altos apenas por usar a sigla “AI”, algo claramente se descolou da realidade.
O caso Allbirds é menos sobre tênis ou GPUs — e mais sobre como narrativas voltaram a pesar mais do que modelos de negócio. Para investidores e executivos, o alerta é claro: separar escassez real de valor econômico sustentável nunca foi tão necessário. Porque quando uma marca de calçados vira empresa de computação da noite para o dia — e o mercado aplaude de pé — é sinal de que o ciclo pode estar, novamente, acelerando rápido demais.
HEADLINES
World Big News
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A guerra com o Irã aproxima os EUA de se tornarem exportadores líquidos de petróleo bruto pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial (Reuters)
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Governo, Tesouro, BC e Brasília
Governo define setores que podem acessar crédito de R$ 15 bilhões (Agência Brasil)
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Economia Real, Agro e Commodities
GPA ajusta linha de frente e traz trio do varejo para tentar uma guinada na operação (NeoFeed)
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Faria Lima, Wall Street, Euro, Ásia
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Após quase três décadas, o fundador da Netflix, Reed Hastings, está se afastando do conselho administrativo da gigante do streaming (The Hollywood Reporter)
Tech, Silicon Valley, Startups, VC, Criptos
Monashees avança em seu 11º fundo com alvo de chegar a R$ 1 bilhão (NeoFeed)
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IPO, M&A, Private Equity e Special Sits
Com R$ 26 bi sob custódia, Manchester faz sua 4ª aquisição e mira crédito (Brazil Journal)
A fabricante de peças aeroespaciais Arxis levanta US$ 1,13 bilhão em IPO nos EUA (Reuters)
O PIF da Arábia Saudita está vendendo uma participação majoritária no Al Hilal Football Club em uma transação de US$ 373 milhões (Private Equity Insights)
GRÁFICO DO DIA

AGENDA
Segunda 13/04: —
Terça 14/04: Crescimento do Setor de Serviços (BRA)
Quarta 15/04: Vendas no Varejo (BRA); PIB da China
Quinta 16/04: IBC-Br; PIB do Reino Unido
Sexta 17/04: —
MEMES SESSION


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